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23/02/2008


O Grande Pavor do AA
(por André Akkari)


Muitos acham que é fácil jogar a melhor mão do poker, mas poucos o fazem direito.

Resolvi desta vez escrever de uma particularidade técnica do game que pode se resumir ao medo que muitos jogadores têm de ganhar. É isso mesmo, parece estranho, mas acredito que a maioria dos jogadores, na maioria os iniciantes e intermediários, têm de saber lucrar na hora certa, saber ganhar grandes potes, e um caso que demonstra isso com toda a clareza é o medo de jogar a melhor mão do poker, o AA.



Vamos partir de alguns princípios básicos que envolvem o poker profissional:

- Você não deve se apegar a nenhuma mão como se fosse a vida ou a morte do seu torneio. Para o profissional, saber jogar os adversários é o lado lucrativo do jogo e, se você consegue fazer isso com perfeição, você pode simular quatro pares de Ás a cada 10 minutos.

- Existem diversos momentos em um torneio – momentos de abandonar uma mão e minimizar o prejuízo, momentos de fazer pressão nos adversários, principalmente na questão financeira (bubbles de ITM, bubbles de mesa final) e também momentos de lucrar – todo jogador de poker tem que ter prazer neste momento, e não medo.

- O profissional joga apenas as condições psicológicas, matemáticas e técnicas do jogo. Sorte, azar, discussões sobre software e coisas do tipo não devem fazer parte da rotina de um profissional, ou seja, de alguém que decidiu dedicar sua vida e a de sua família aos caminhos do poker. Tendo colocado estes princípios básicos, até ridículos, mas que precisam ser lembrados, vamos ao fato.

Como jogador de poker, você vai sempre procurar situações em que a matemática do jogo lhe favoreça ou, quando isso não acontece, que sua habilidade de simular uma situação matemática diferente fale mais alto, ou seja:

Você está no meio da mesa, três posições depois do Big Blind, em uma mesa completamente tight, onde ninguém joga mãos marginais, e você tem 55, blinds 500-1.000, ante de 100. Você tem 34.500, resolve apostar 2.700. Justa a sua atitude, já que você está em mesa tight, a cada volta o pote tem 2.400 e não há nada mais justo do que você atacar os blinds com 55.

O jogador no Small Blind paga a sua aposta, para sua surpresa, pois normalmente a mesa roda em fold, e automaticamente você o coloca em alguma mão de valor, como um 66, 77, AQ... Com menos do que isso, ele largaria e, talvez, com mais do que isso, ele voltaria a aposta, pelas características daquele jogador. Não precisamos saber o flop, apenas quero fazer uma pergunta para depois podermos falar sobre o AA.

Você vai jogar esta mão como se realmente tivesse um 55, ou você vai jogar esta mão como se você tivesse um AA? Se a sua resposta foi "jogar como 55", saiba que você vai lucrar em aproximadamente 20% das vezes, na melhor das hipóteses. Se a sua resposta foi "sim, sou macho, vou tentar ler o meu oponente no flop e, se perceber algum tipo de fraqueza, jogo esta mão como se fosse um AA." Parabéns, você será lucrativo na maioria das mãos jogadas desta maneira. Em resumo, da segunda forma, você transforma uma situação matemática adversa em uma situação matemática positiva, pelo seu fundamento técnico (leitura, posição, etc.), mas principalmente pela vontade de ser lucrativo e pela coragem de encarar a mão como ela deve ser encarada.

Porém, existem situações em que a matemática joga totalmente a nosso favor, e a melhor destas situações é o AA. O objetivo principal desta coluna não é fazer com que você jogue um AA como se fosse 55, e sim que jogue o AA como deveria.



Regras básicas para jogar o AA:

1- Temos que entrar no pote procurando o melhor caminho para lucrar o máximo da situação matemática favorável.

2- Temos que tentar trazer ao pote o menor número de pessoas possíveis, para que nossa situação matemática continue francamente favorável, porém, sem afastar todo o mundo da jogada.

3- Se o objetivo é o título, os deuses do baralho lhe deram a chance ao entregar aquele AA; portanto, não coloque desculpas como bubbles e coisas deste tipo para jogar o seu AA de forma equivocada. Jogue o AA como merece algo que lhe dê 80% de chance de ganhar e só vá aparecer de novo daqui a mais de duzentas mãos.

4- Trace sua estratégia com as informações que você tem na mesa. Caso sua estratégia falhe, esteja preparado para largar o AA como se ele fosse um 72off, mas não minta para você mesmo, não sinta medo e nem fale que a sua estratégia falhou, como desculpa. Analise realmente todas as informações e, aí sim, jogue o seu AA fora.



Vamos a alguns exemplos práticos:

Você tem 56.000 fichas e está jogando um torneio de alto nível técnico, como o US$ 100 com rebuys do PokerStars. Você está no Big Blind, vem jogando tight até aquele momento e sabe que a sua imagem para a mesa é a de um jogador sólido. Os blinds estão 500-1.000 e você olha um belo e formoso AA. No cut-off, uma posição antes do dealer, está o Andy McLeod com 70.000 fichas, um jogador famoso do mundo online, com muita habilidade, mas com uma agressividade fora do comum. Ele dispara um bet de 3.000.


Com a sua imagem tight, diversas atitudes podem jogar o seu AA no lixo:

- Voltar nele 3.000 + 6.000 é como assinar o seu AA na testa. Ele, sabendo como você está jogando até aquele momento, já vai estar com o fold clicado.

- Voltar nele 3.000 + 10.000 significa que você irá ficar com 43.000 para trás. Esta seria uma opção melhor que a anterior, mas mesmo assim arriscada. Com sua imagem tight, ele deve largar a mão. Caso ele acredite que te voltando all in você ainda possa largar, esta opção pode funcionar. Entretanto, eu só faria isso se tivesse de 65.000 a 80.000, para dar certeza a ele de que eu não pagaria um all in dele, com 70.000.

- Voltar all in nele seria uma atitude somente aceitável se você estivesse jogando um estilo mais loose e, principalmente, se o roubo de blind dele já viesse de uma seqüência de outros três ou quatro roubos dos seus blinds anteriores. Caso contrário, você estaria jogando o seu AA fora.

Estas opções seriam aquelas em que você definitivamente estaria correndo riscos de jogar o seu AA pela janela, em algumas mais e em outras menos, mas seria perigoso de qualquer forma. Vamos à melhor opção para esta situação:

Apenas call. Jogar heads-up contra um jogador ultra-agressive como este é a melhor forma de você tirar o máximo de lucro naquela mão, rezando ao máximo para que ele acerte alguma coisa no flop ou que, pelo menos, ele ache que você não acertou, para que no continuation bet dele de 10.000 você consiga se mover de forma a lucrar mais fichas do que apenas os 3K pré-flop.

Se um jogador ultraagressive acertar um top pair no flop, no heads-up, fica muito complicado para ele abandonar a mão, e isso será altamente lucrativo para você.

Outras situações nas quais você deve lucrar o máximo que conseguir com AA são mãos onde a ação já vem antes de chegar a sua vez, com mais de uma pessoa no pote:

Você está no dealer, com AA, o UTG +1, ou seja, o segundo jogador a falar, com blinds 500-1.000, aposta 3.000, e fica com mais 50.000 para trás. Ele é um jogador ultra-tight, só apresentou mãos fortes até o momento. O cut-off, a sua direita, aplica um re-raise para 9.800 e fica com 90.000 para trás. Este é de um estilo agressivo, adepto aos re-raises préflop, com posição, para tomar o comando do pote. Qual seria a sua atitude, tendo AA e 60.000 fichas?

Se você voltar all in, tem que rezar para que o primeiro jogador tenha KK, QQ ou, na pior das hipóteses, um AK. Qualquer coisa fora isso, o fold vai ser instantâneo. Por que eu disse "rezar para o primeiro ter algo"? Simplesmente porque, na verdade, sobre o segundo jogador você já tem a informação de ser ultraagressivo e familiarizado com re-raises pré-flop, as chances dele foldar são enormes, vendo que você veio over the top em cima do bet do UTG+1, que é ultra-tight. Qualquer jogador que venha de all in over the top, em cima de um bet de um jogador tight nas primeiras posições, é como se estivesse anunciando no Jornal Nacional que está com AA.

Se você voltar algo, como "tudo 20.000", a coisa talvez fique ainda pior – é o famoso "vem cá, minha nega", como dizemos na gíria do poker. É uma declaração, com firma reconhecida, do seu AA. Ou seus adversários vão foldar mais rápido que as McLaren este ano ou eles são realmente bem ruins de baralho.

Novamente, a melhor opção seria o call, no re-raise do agressive. Optaria por esta ação e torceria para que o jogador tight tomasse um de dois caminhos: o primeiro seria ele voltar all in over the top, o que ficaria maravilhoso para mim, já que as chances do segundo foldar são grandes e eu entraria de AA pré-flop contra uma mão grande e dominada, provavelmente AK, KK ou QQ do UTG +1; ou então que o UTG+1 foldasse pré-flop. Desta forma, eu estaria jogando apenas contra o agressive e, em posição privilegiada, seria uma bela oportunidade para o acúmulo de fichas pós-flop. As chances dele continuar querendo comprar o pote pós-flop são gigantes depois do re-raise aplicado pré-flop.

Vocês repararam que, em todas as situações, procurei achar a forma mais lucrativa para jogar o AA, sem medo nem preconceito, apenas querendo tirar o maior proveito de situações em que a matemática está ao meu lado, sem que precise simular uma matemática positiva.

Obviamente vem na cabeça de muitos situações como aquelas quando o oponente, com 88, acerta o 8, pois tentei lucrar mais com AA; ou fui fazer slowplay e o adversário acertou dois pares no flop. Isso não importa!

Com o tempo, você vai conseguir desenvolver sua habilidade de leitura de adversários, tanto online quanto live, que te levarão a identificar situações complicadas, e saberá largar qualquer tipo de mão em qualquer tipo de flop. Mas, antes disso, você deve desenvolver com excelência a capacidade de lucrar, sem medo!


Artigo de André Akkari, publicado na Revista Flop de Outubro/2007.




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