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05/01/2009
Meu,
que cara idiota
(por
John Vorhaus)
Não
confunda bons resultados com boa jogada
Phil
Hellmuth afirmou de maneira famosa: "Se não fosse pela
sorte, eu ganharia de todos". Eu pensei nessa
citação recentemente, quando investi meu dinheiro
e perdi o pote — e minha vida no torneio — contra
alguém que não deveria (pelo menos
matematicamente) pagar meu all-in. Parecia, para mim, naquele momento,
que eu não fui vítima da sorte, mas da idiotice.
Um adversário mais inteligente jamais teria comprometido seu
dinheiro naquela situação.
Eu não estou me lamentando,
pois sou mentalmente forte o suficiente para suportar esses baques, e
também tenho a consciência tranqüila de
que a péssima matemática de meu
adversário eventualmente resultará em meu lucro.
Mas eu não pude evitar sair da mesa do torneio pensando:
Meu, que cara idiota. Eu fui além e gracejei com o diretor
do torneio: "Por favor, não permita que idiotas joguem mais
em seus torneios". A isso ele respondeu (bem sucintamente, eu achei):
"Mas nós não queremos banir você,
Jayhawk". De qualquer forma, logo eu me encontrei em um cash game em
que uma mão interessante surgiu.
Eu tinha aumentado do under the gun
com um par de ases, e alguém com J-9 tinha pagado. Em um
flop com J-9-6, todo o dinheiro foi para o centro, e eu olhei para o
dealer e disse: "Bem, eu acho que preciso de um seis". Bam! Seis!
Conforme eu tinha pedido. O cara do outro lado da mesa me encarou
boquiaberto — com o mesmíssimo olhar que eu tinha
lançado para o cara que havia pagado minha aposta e me
eliminado do torneio. Eu quase conseguia ver o balão de
pensamento acima da cabeça de meu adversário:
Meu, que cara idiota.
Eu fui idiota? Eu não sei.
Talvez um pouco. As apostas se deram de modo que eu podia colocar meu
oponente razoavelmente em dois pares ou um draw, e optei pelo draw. Na
realidade, eu estava filtrando a realidade através da
esperança, como todo mundo faz quando tem um par de ases,
com aquela sensação de merecimento. De qualquer
modo, bom pagamento, essa não é a
questão. A questão é que, do ponto de
vista do outro cara, eu definitivamente pareci um idiota e, portanto,
ele poderia se considerar não uma vítima de
má sorte, mas de minha jogada ruim. E essa é uma
das verdades do poker (e possivelmente da vida): não importa
o que faça, você vai parecer um idiota para
alguém em determinado momento.
Mike Caro certa vez escreveu que, no
poker, todo mundo reveza o cometimento de erros, e que a chave para o
sucesso é simplesmente passar sua vez. Mais fácil
falar do que fazer, certo? Eu não conheço
ninguém que jogue um poker perfeito, eventualmente
protagonizaria algo que lhe faria parecer tremendamente idiota para a
vítima de sua jogada.
Digamos, por exemplo, que
você esteja jogando no tipo de cash game em que
vários oponentes entram de limp com qualquer coisa, mas
depois desistem diante de um raise mais forte. Tendo notado essa
tendência, você resolve tentar capturar um pote
aumentando do big blind com a mão "Boba" 6-2 de mesmo naipe.
Essa é uma jogada idiota? Não se funcionar
– e, nesse caso, você tem toda a razão
para acreditar que irá. Contudo – ops –
dessa vez alguém paga. Ele tem A-J, e o flop de A-6-2
é um desastre previsível para a mão, o
estoque e o estado mental dele. Todo o dinheiro vai para o meio da mesa
e, quando a mão termina, ele não consegue parar
de dizer o quanto você foi terrivelmente idiota por ter
aumentado do big blind com 6-2.
E, mais tarde, quando ele contar a
história aos amigos, todos eles vão concordar que
você foi de uma burrice colossal que, fatalmente, vai acabar
perdendo todas as suas fichas um dia, junto com, fatalmente, seu carro,
dignidade e, provavelmente, cachorro da família. Quando
você contar a história a seus amigos,
porém, você não parece idiota de forma
alguma. Eles podem lhe achar inconsequente, mas de forma
admirável: você aumentou do blind com uma
mão fraca. Isso é jogar com coragem, baby. O
interessante é que os amigos de todos estão
certos – sob suas próprias perspectivas. E os
amigos de todos estão cometendo o mesmo erro: eles
estão olhando o resultado, julgando a qualidade da jogada
com base no desfecho, o que é uma modalidade particular de
idiotice. Veja, uma jogada é boa ou é ruim:
resultados importam apenas porque permitimos.
Então, eu estava jogando em
outro torneio, contra oponentes tão weak-tight que eu achei
que poderia lucrativamente aumentar do UTG com 74º. Resumindo,
flopei uma sequência e dilapidei o estoque de um jogador.
Você precisava ter visto os olhares ao redor da mesa: Meu,
que cara idiota. Então eu me ajusto, certo? Espero por uma
mão de verdade. Uma rodada depois, eu aumento do
começo da mesa com um par de reis e um jogador em
posição final aumenta. Eu sei que ele ainda
está pensando naquele 7-4, então eu volto all-in
e ele paga com A-9. Ele consegue um ás e me elimina, dizendo
para a mesa: "Bem, eu sabia que ele estava fraco". Fraco? Como assim?
Um par de reis? Ok, então na minha versão da
história eu armei lindamente contra ele, investi muito
dinheiro, e tive má sorte: fazer o quê? Nessa
versão da história, eu me comportei como um
aventureiro irresponsável que foi além do que
deveria com muita frequência. Então, quem foi
idiota? Eu, por ter colocado todas as minhas fichas no pote contra
alguém que poderia ter sorte e me derrotar? Ou ele, por
não acreditar que eu era capaz de, você sabe, ter
uma mão de verdade? Não sou o juiz. Eu nem sequer
acho que importe.
Às vezes você vai jogar de
maneira inteligente e parecer idiota. Apenas não confunda
bons resultados com boa jogada, senão você
estará prestando atenção somente no
desfecho, o que não é uma boa idéia.
Artigo de John Vorhaus,
publicado na revista Card
Player Brasil Ano 2, N°. 15.
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