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20/01/2009
Os
três estágios
(por
Raul Oliveira)
Nesta
edição vou falar sobre o modo como classifico o
nível dos jogadores. Não discutirei o estilo de
cada um, mas sim o modo com que encaram o jogo. Para isso, vou
dividi-los em três estágios. No primeiro se
enquadram os iniciantes, aqueles que enxergam o hold'em como
uma roleta, e também os que têm
"preguiça" de pensar e por isso não sabem de nada
do que esta acontecendo ao seu redor. No segundo estágio
estaria a maioria dos jogadores, no qual se sabe o que está
acontecendo, mas ainda é preciso pagar para ver que estava
certo. E no terceiro é onde se encontram as grandes feras do
poker mundial, no qual o mais importante é sua
própria leitura. Saiba um pouco mais sobre cada um desses
níveis.
ESTÁGIO 1
Neste primeiro estágio as cartas da mão
têm 100% de importância na forma de o jogador atuar
– o raciocínio é limitado e fica preso
ao seu próprio jogo. Um exemplo clássico
é quando o jogador recebe AA e nada que venha no bordo o
fará largar a mão. Ao final, ele irá
mostrar seu par de ases como quem diz: "o que poderia fazer, eu tinha
AA..." O importante aqui é entender que o jogo é
composto pelas 5 melhores cartas das 7 que cada um usa,
então, num bordo como
K Q T 8 7 , se você
tem AA, sua mão é a 19ª melhor (sem
considerar os naipes das cartas). Em outras palavras, numa
mão com muita ação, com certeza
estará perdendo com seu par de ases, e saber
largá-lo é fundamental. Se você se
encontra nesse estágio, estude bastante, e o principal: se
desapegue das próprias cartas! Não é
porque tem AK que deve ir até o fim da mão
– assim como não é porque têm
apenas um 22 que vai dar fold: raciocinar sobre a jogada desde o
pré-flop é o mais importante. Prestar bastante
atenção aos bons jogadores também
ajudará.
ESTÁGIO 2
Aqui o jogador tem a leitura do jogo, mas ainda precisa pagar muitas
vezes para ver que estava certo. Neste caso, a
auto-afirmação passa por ele dar call e falar "eu sabia que ele tinha tal mão". A
questão é: se você sabia, por que
pagou? Acho que apenas 1% dos jogadores consegue fugir desse
estágio completamente, portanto, minimizar o tempo de
permanência nele deve ser seu objetivo. Eu mesmo, por muitas
vezes, me pego dentro dele, principalmente durante as bad runs. Esse
com certeza é um dos fatores que aumenta (e muito) nossas
perdas nas marés de azar, e a celebre frase "ele
não pode ter jogo de novo", no fundo, é
uma mentira para nós mesmos, que sabemos que estamos batidos
mais uma vez, mas queremos pagar para mostrar com o quanto azar estamos
e que não há como não perder muito
mais nessa hora. Um exemplo típico do estágio 2
é quando a 3ª do naipe vem no bordo, e seu
adversário, que deu todos os indícios que estava
para a queda do flush, aposta alto, e você paga com sua
trinca e diz: "inacreditável". Um treino
legal para se fazer é tentar acertar as cartas dos
adversários e anotar seu índice de acerto
– quando ele estiver bem alto você não
precisará mais pagar para ver que estava certo.
ESTÁGIO 3
Neste nível o jogador atua 100% com base em sua leitura das
mãos. Para ele não importa o que tem na
mão, e sim se tem como bater seu adversário, seja
pelo seu jogo ou pela sua aposta. O poker perfeito seria jogado se
pudéssemos ver as cartas dos adversários e, aqui,
é isso que o jogador tenta fazer: jogar como se estivesse
vendo as cartas dos outros. Permanecer constantemente neste
estágio é uma missão quase
impossível, mas, quanto mais tempo se mantiver nele, melhor
será seu resultado. Grandes laydowns valem tanto –
ou mais – do que grandes blefes, e é nesse
nível que a coragem que leva os jogadores a blefar forte
numa mão, seja a mesma força que os faz jogar
fora um AA no flop, pelo simples fato de pensarem que estão
batidos. No estágio três, há outro
fator importante: o jogador minimiza a importância das odds
na mão, já que sua leitura passa a ter mais valor
do que os números frios. Isso não quer dizer que
ele abandone as probabilidades, mas apenas que não joga mais
tanto em função disso.
Acredito que entre os bons jogadores exista uma constante luta entre o
estágio dois e três, e o resultado disso na
maioria das vezes se reflete no desempenho do próprio
jogador. Uma coisa que fica clara é que, durante os bons
ventos, manter-se no três é muito mais
fácil. Dar um fold difícil quando se
está ganhando bem é muito mais simples do que
fazer isso quando se está perdendo muito (assim como uma bad
run nos segura no estágio dois), e conseguir fugir dessa
regra é muito importante. Outro fator decisivo é
a parte psicológica e o preparo mental: jogadores frios
tendem a não se abalar com bad beats e isso faz com que eles
sigam raciocinando mais e errando menos. Por outro lado, os mais
emotivos "tiltam" com muita facilidade e,
dependendo do "despreparo" emocional, em certos
momentos, jogadores que atuam no estágio três em
boa parte do seu jogo voltam até o um, e jogam movidos
simplesmente pela raiva do momento.
O recado que quero deixar aqui é: tenha como meta trabalhar
sua leitura, para que um dia possa jogar apenas com base nela. Grandes
jogadores passam a sensação de que
estão vendo nossas cartas e, no fundo, estão
mesmo.
Artigo de Raul Oliveira,
publicado na revista Card
Player Brasil Ano I, N°. 06.
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