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22/04/2009
Usando
um colete à prova de balas
(por
David Apostolico)
Uma
linha tênue separa um pagador de um gênio. Muito da
sabedoria aceita em no-limit poker diz que você deve desistir
ou aumentar. Pagar é para aqueles com tendências
masoquistas. Existem momentos, no entanto, em que eu pense que um call
seja perfeito, necessário às vezes como
auto-defesa. Em vez de considerá-lo uma jogada fraca,
imagine-o como um manto de segurança, ou, mais
apropriadamente, como um colete à prova de balas.
Uma das coisas que eu mais gosto de
ver é um jogador que dá três tiros no
pote quando não acerta nada no bordo. Disparar
múltiplos tiros é uma excelente maneira de jogar
contra a maioria dos oponentes. Se você aumentar
pré-flop, deve continuar a ser agressivo
pós-flop. Existe um ditado conhecido no mundo do poker
segundo o qual "um amador dispara um tiro no pote, enquanto um
profissional dispara dois ou três". Se você
não conhecer esse fato e ocasionalmente se defender,
está basicamente convidando a mesa inteira a lhe roubar
sempre que um flop não lhe beneficiar.
Quando eu sei que meu oponente
está prestes a disparar três tiros extras, eu o
ofereço a oportunidade de blefar entregando suas fichas a
mim. Em um torneio recente, eu queria pegar um oponente bastante
agressivo. Ele aumentou de posição final e eu
paguei do big blind com J 9 . O flop veio Q J 3 . Eu pedi mesa, e ele apostou
forte. Eu paguei. O turn trouxe o 4 . Mais uma vez, pedi mesa. Eu
ainda tinha plena convicção de que minha
mão era mais forte e de que meu oponente tentaria me
assustar e me fazer desistir dela. Ele fez novamente outra aposta
enorme. O river me deu a melhor carta possível – o
A . Eu tinha a segunda melhor
mão possível depois de acertar um flush na
última carta. Eu esperava que meu oponente tivesse um
às. Pedi mesa, e ele foi de all-in. Eu paguei imediatamente,
e ele relutantemente virou A-3, mostrando seus dois pares. Ele fez um
comentário sobre quão sortudo eu tinha sido, e
depois se perguntou quando ele aprenderia a não apostar
contra jogadores que não sabem largar uma mão.
Obviamente, depois do flop, eu tinha a
melhor mão o tempo todo. Eu sabia disso e deixei meu
oponente blefar suas fichas em minha direção. Em
geral, eu não sou fã de slowplay, e é
muito arriscado fazer isso com uma mão tão
vulnerável como era a minha, muito embora eu estivesse
convicto de que estava com a melhor. Se eu tivesse apostado ou
aumentado em qualquer momento, eu poderia ter tido alguma
idéia da mão de meu oponente. Nesse caso,
contudo, eu não achei que precisava fazer isso. Eu sabia o
suficiente sobre ele para compreender que a melhor maneira de maximizar
meus lucros nessa oportunidade seria deixá-lo apostar antes
de mim em cada rodada.
Eu também fiquei feliz ao
ver meu oponente reagir da maneira como reagiu. Eu não
apenas levei um pote considerável, como fiz com que ele, a
partir dali, pensasse duas vezes antes de disparar tiros contra mim.
Outro ótimo benefício adicional foi a propaganda
gratuita para o resto da mesa. Alguns dos oponentes mais astutos
perceberam o que eu estava fazendo, mas eu sei que outros acharam que
eu estava simplesmente tentando formar um flush.
É incrível a
quantidade de vezes em que eu testemunho jogadas similares (seja
ocorrendo comigo ou com outros), e a reação do
jogador agressivo é sempre de
indignação, pois ele não consegue
acreditar que o vencedor da mão poderia pagar. Entretanto,
em alguns casos, eu realmente acho que alguns jogadores são
apenas "pagadores", que dão call com cartas marginais
rezando para que tenham a melhor mão, em vez de fazer uma
boa leitura sobre o oponente. Porém, eu tenho certeza de que
muitos desses chamados "calling stations" estão explorando
completamente seus oponentes super-agressivos, de modo a maximizar os
lucros.
Eu creio que a arrogância do
jogador, demonstrada quando alguém paga e ele é
pego blefando, é bastante reveladora. Tais jogadores
acreditam que têm direito ao pote por causa de seu
supostamente correto estilo agressivo, e seus oponentes se comportam
como idiotas para seu próprio bem. Embora isso possa ser
verdade às vezes, eu acho que muitos dos famosos "pagadores"
são muito mais astutos do que se imagina.
Artigo de David Apostolico,
publicado na revista Card
Player Brasil Ano I, N°. 10.
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