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23/12/2009
Diferentes
pontos de vista e um único resultado
(por
Leo Bello)
Alguns leitores
talvez já tenham ouvido falar de um jogador americano
chamado Justin Bonono. Ele ficou conhecido no meio do poker
há alguns anos, tanto por ações
positivas quanto por outras atitudes condenáveis, mas o fato
é que o considero um dos melhores jogadores do mundo,
principalmente porque sempre admirei seu modo de pensar sobre poker e
de colocar as ideias no papel - muito parecido, aliás, com o
que gosto tanto de fazer.
Quando comecei a jogar poker, minha
primeira fonte de aprendizado foram os posts no fórum Two
Plus Two, e Justin, com o apelido de Zee Justin, tinha algumas das
participações mais brilhantes e
didáticas. Eventualmente, outras fontes de
referência, como livros e discussões com amigos
foram aumentando meu arsenal de estudo, mas os posts do
fórum continuavam com destaque nos meus favoritos. Justin
tinha também um blog em uma página pessoal, e
seus textos eram inspiração.
Até que tudo veio abaixo.
Justin foi pego em um caso que foi considerado burla às
regras dos sites de poker online, com múltiplas contas.
Resumindo, ele entrava no mesmo torneio com até seis contas
diferentes no Party Poker e Poker Stars. Isso aconteceu em 2006 e,
passados dois anos, muitas pessoas já até
esqueceram essa história.
Justin se arrependeu, pediu desculpas,
ficou longe do mundo do poker por um ano, e acabou voltando por cima, e
fazendo no Five Diamond Classic, no Bellagio, torneio válido
pelo WPT, nada menos do que quatro mesas finais, incluindo a do Main
Event, onde ele foi bolha da mesa da TV (7° lugar). Ele
já ganhou mais de 1 milhão de dólares
em prêmios.
Claro que um dos primeiros pontos
desse artigo é aproveitar para falar da volta por cima desse
fabuloso jogador, e de seu talento, que se sobrepôs aos erros
que ele cometeu. Porém, toda essa
introdução foi apenas para chegar ao meu objetivo
na edição deste mês.
Na edição
passada, após ver que vários jogadores falaram
sobre metagame, e sobre todos os aspectos não
matemáticos que envolvem a tomada de decisões em
uma determinada mão ou torneio, resolvi abordar esse assunto
colocando um pouco mais de pimenta. E para isso, decidi utilizar parte
dos conceitos que li em um artigo do Justin: essa é a
razão da introdução.
Vou começar com duas
afirmações importantes:
"No poker, para cada jogada, existe
uma que é matematicamente mais correta do que as outras, a
qual chamamos de 'optimal play' (jogada otimizada)". E a segunda
é que "em cada jogada existe uma opção
'otimizada', o difícil é interpretar a
situação corretamente".
Vamos à
explicação da importância das duas
afirmações: Quando você enfrenta uma
decisão no poker, pode tomar as seguintes
ações:
| Check/Call |
Bet/Raise |
Fold |
Das três, a única
de EV = zero seria dar fold. Ou seja, a expectativa de dar fold
é que você não ganhe nem perca mais
dinheiro, portanto, é uma opção neutra
na mão. Lembre-se de que as fichas que já
estão no pote não são mais suas, logo,
você não pode imaginar que as perdeu.
Ao
optar entre check/call ou bet/raise, uma das
opções terá o melhor retorno quando o
EV for analisado em cada opção. Em
situações simples esse cálculo pode
até ser feito mas, na prática, na maioria das
vezes, é impossível calcular exatamente na mesa,
e você acaba tomando sua decisão baseado numa
mistura do seu feeling, com o que você estudou e adquiriu de
experiência em outras situações
semelhantes.
Os grandes jogadores muitas vezes se
preocupam em estudar e fazer esses cálculos durante a sua
preparação, na fase de estudos. E podem
acreditar: isso ajuda muito. Ter a visão do que é
matematicamente correto é fundamental para ser um jogador
vencedor.
Este ponto é importante,
pois, enquanto falamos tanto de metagame, é preciso lembrar
que o cerne do poker é fazer jogadas com expectativa
matemática positiva, que o levarão ao lucro no
longo prazo. Caso contrário, você eventualmente
será um perdedor no feltro.
Agora vamos ao fator de
confusão do artigo, que é onde a segunda frase
entra. E aqui, usarei um pouco do exemplo do Justin.
Imagine que você
está em um torneio importante, como o WSOP ou EPT, e entra
na seguinte mão: com os blinds em 2000-4000 e antes de 200,
você tem A Q e aumenta do under the gun para
13.500, mostrando força. Seu stack é de
aproximadamente 200 mil fichas, acima da média no momento.
Está também confortável, com mais de
50 big blinds. Todos dão fold até o jogador no
button, que tem um pouco mais fichas do que você, e
dá call. A sua percepção deste jogador
é que ele é bem tight e vem jogando assim
há algum tempo. O flop vem Q 5 9 . Você tem o top pair e
resolve sair apostando 19 mil fichas. O adversário
dá call sem pensar muito.
O turn traz um 3 , completando um
possível flush draw, e você, por não
querer receber um raise e jogar um pote grande fora de
posição, resolve pedir mesa após
pensar um pouco, decidido a talvez dar call caso seu
adversário aposte, porque além do top pair
você tem o A de ouros, e se uma quarta carta de ouros
aparecer você ficaria com o nut flush. O outro jogador
dá check depois de você, optando por
não apostar.
No river dobra o 5 . Você, após
pensar um pouco, resolve apostar com o seu top pair (na realidade, dois
pares com kicker no ás) e coloca 40 mil em um pote que tem
cerca de 70 mil fichas. Seu adversário resolve fazer um
raise e aumenta mais 120 mil, praticamente colocando você em
all-in.
Seu primeiro instinto é
pensar que ele acertou o flush no turn e fez slowplay dando check, e
você já vai jogando suas cartas fora.
Porém, antes de fazê-lo, resolve pensar na jogada,
analisando a situação pra ver se lhe ajuda a
tomar a decisão mais correta. Começa tentando
colocar o adversário em um range de mãos e
imaginando o que ele faria em cada rodada. Logo no início,
resolve descartar AA, KK, AK e QQ por imaginar que, em
posição pré-flop, o
adversário teria reaumentado com essas mãos, e
portanto a ação a partir daí perderia
o sentido. Começa então a pensar em
mãos que ele daria call pré-flop e poderia jogar
dessa maneira. A que mais assusta é o 99, que poderia ter
feito uma trinca no flop e full-house no river. Porém, neste
caso, o check do adversário no turn, e até mesmo
no flop, parecem muito errados.
No flop, não dar raise com
duas cartas de ouros na mesa, e ainda uma queda para
sequência possível (Q9 no bordo), parece errado
com o 99. E mais equivocado ainda é não apostar
com a trinca no turn após a terceira carta de ouros surgir.
Será que o adversário tight daria tantas chances
para você completar um possível flush ou
sequência tendo apenas uma trinca? Em um torneio deste
nível, e nesse momento avançado de blinds,
não espere encontrar jogadores que permitam que as
próximas cartas sejam vistas de forma barata.
Assim, as chances de trinca no flop,
no seu raciocínio, diminuem.
Será que ele poderia ter
chamado pré-flop com duas cartas de ouros, como KJ ou suited
connectors? Lembrando que com o ás de ouros na sua
mão, isso diminui muito as chances do adversário
chamar com cartas desse naipe, ou ainda de dar raise não
tendo o nut flush; ou pior, num bordo em que dobrou e deu chance para
um full house. Se ele tem duas cartas de ouros, a jogada mais correia
seria ele ter apostado no turn com o flush feito, tanto para ganhar
fichas como para impedir que você visse o river de
graça e uma carta desse naipe aparecesse. Ele não
apostou no turn e deu raise no river quando uma carta dobrou, ou seja,
você elimina mentalmente a chance de flush.
Dentre as opções
em que você pensa, uma se encaixa bem: ele pode ter dado call
com uma mão como JT, e ter flopado uma queda para
sequência, tendo chamado sua aposta rapidamente. No turn,
como a sequência não apareceu, ele deu check e, no
river, está dando um raise como um blefe, aproveitando-se da
carta dobrada e do possível flush na mesa, tendo percebido
fraqueza em você. Agora, você tem que decidir: ele
está blefando e você dá call?
Você larga a mão e sobrevive no torneio, pois ele
pode ter um flush ou full house?
As informações
que se tem já são muitas, e se você
tivesse um computador à mão, que calculasse a
parte matemática mais os outros aspectos da
situação, saberia qual seria a melhor jogada.
Esse computador, além de fatorar os números,
teria também que analisar a situação.
Agora vem a beleza da
história: vamos olhar a mesma situação
do ponto de vista dos outros jogadores da mesa.
Vamos brincar e colocar nomes. Igor
Federal, jogador muito observador e que acredita muito no poder da
leitura, estava prestando atenção à
jogada, e tem certeza de que o jogador que deu raise está
blefando. Na sua cabeça, ele percebeu que o sujeito estava
calmo ao longo da mão inteira, e que quando o flush apareceu
no turn ele não demonstrou nenhuma
reação, como se o seu jogo tivesse entrado. Ao
fazer a aposta no river também não, e chegou a
ficar aliviado quando percebeu que você ia jogando suas
cartas fora. Porém, quando você voltou
atrás e colocou as cartas de volta no lugar e voltou a
pensar, ele começou a tremer com a mão. Igor sabe
que ele está blefando, e você não
percebeu isso. Você não tem esse pedaço
da situação pra jogar lá no computador.
Leandro Brasa acabou de ser movido
para esta mesa, e estava se sentando quando viu que havia um all-in na
mesa. Olhou rapidamente para o bordo, viu a possibilidade de flush e
full house, perguntou ao jogador ao lado como havia sido a
mão e viu que quem tinha dado raise estava tremendo. Sabendo
que o sujeito é tight, Brasa pensou: "ele tem um jogo muito
forte. Está ganhando com certeza. Esse raise só
pode significar full house".
André Akkari, que sempre
joga online com o cara que deu raise, e sabe que ele é
extremamente tight, foi quem contou a mão para o Leandro
Brasa, ressaltando na história o estilo tight do sujeito.
Akkari tem certeza de que esse jogador não blefaria o stack
inteiro em uma mão como essa, ainda mais no final do torneio.
Só que Rafael Caiaffa, que
está ao lado do Akkari, tem uma outra visão: ele
percebeu que essa mesa é a próxima a ser quebrada
e que todos vão se separar em breve. Ele mesmo vinha
pensando, como bom blefador que é, que este momento era
perfeito para soltar um belo blefe, principalmente se você
viesse jogando tight. Caiaffa também pensou a mão
inteira como você, só que, com o fator adicional
de ter percebido que a mesa ia quebrar, decidiu que a
situação era perfeita para o blefe.
Veja que as
informações do Brasa (que viu o cara tremendo e
reviu a jogada com espectador), do Akkari, que conhece o jogador do
online e sabe que ele é tight e quase não blefa,
e do Fabião, que viu que a mesa vai ser quebrada,
não estão sendo levadas em conta por
você no seu processo de tomada de decisão.
E se eu disser que o Felipe Mojave
está sentado ao lado deste jogador, e que, desde que ele deu
raise no river, as pernas embaixo da mesa não param de
tremer de nervosismo, e ninguém mais além do
Mojave percebeu isso? Mojave, que esteve o dia inteiro ao lado desse
jogador, percebe o quanto ele ficou nervoso no river, e revendo a
mão também acredita no blefe.
Raul Oliveira, que está na
mesma mesa e analisou toda a situação friamente,
lembrou que a bolha está chegando, e não acredita
que o jogador que deu raise fosse jogar todo o torneio fora em um
blefe. Ele tem certeza de que não é um blefe.
Pior, Raul tinha K J , e ele próprio
teria feito o flush. E se você soubesse disso, ou o
computador soubesse, suas decisões ficariam um pouco mais
fáceis.
Sem
poder levar em conta todas essas informações, sua
decisão fica dificultada. E veja bem: sob o ponto de vista
de metade da mesa, o jogador está blefando; mas do ponto de
vista da outra metade, ele tem jogo.
Você acaba decidindo dar
call e se arrepende no mesmo momento, mas vibra quando o oponente fala
que você ganhou e mostra o JT. Ele está convencido
que você é um péssimo jogador e
pergunta como você pode fazer esse call. Pergunta
até mesmo se você não reparou o
quão tight ele vinha jogando.
Metade da mesa fica surpresa com o seu
call e com blefe. A outra metade acha tão óbvio
que não vê como "mais do que sua
obrigação" ter ganhado a mão.
Você, nesse momento, tomado
pela emoção, já esqueceu
até que logo após fazer o call se arrependeu, e
que seu primeiro instinto o mandou dar fold: você acha que o
seu instinto fez você dar o call.
Qual a moral dessa
história? Poker é um jogo de
informações incompletas. Tomar
decisões seria muito mais fácil se você
soubesse o que cada jogador estava pensando, mas isso é
impossível. A situação pode ser
diferente, dependendo do ângulo ou ponto de vista que se olha.
Preocupe-se em analisar a
situação da forma mais completa
possível naquele instante (metagame) e raciocinar
também a situação que lhe parece ter a
expectativa mais positiva. E se lembre: não se arrependa das
suas escolhas baseadas em informações que
você não tinha no momento.
Boa sorte nas mesas,
Leo Bello.
Artigo de Leo Bello,
publicado na revista Card
Player Brasil Ano 2, N°. 14.
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