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12/01/2010
Jogando
segundo 'O Livro'
(por
Matt Lessinger)
A
jogada correta depende de muitos fatores.
Eu recentemente disputei um Sunday Million (PokerStars, buy-in $215).
Eu vinha me dando bem e mantendo um estoque acima da média
de 19.000. Mas de repente perdi um grande confronto all-in contra um
estoque levemente menor e, assim, fiquei com apenas 2.000. Os blinds eram de
300-600, e eu tinha apenas duas mãos antes de ser
forçado a colocar o big
blind.
A sabedoria convencional do poker
afirma que eu devo ir all-in
antes que o big blind
chegue até mim, mesmo com uma mão lixo. Dessa
maneira, eu ainda tenho "equidade de fold" — já
que um aumento de 2.000 é grande o suficiente para
desencorajar pagamentos, inclusive dos blinds —
e eu posso evitar ficar short-stacked
a ponto de, mesmo dobrando, não ser muito ajudado.
Em muitas
situações, eu não acho que esse seria
um mau conselho. Mas analisando mais de perto minha
situação específica, eu acho que havia
razões claras para não ir all-in com
quaisquer duas cartas:
1. Meus oponentes acabaram de me ver
perdendo um grande confronto all-in.
Quando eu vejo alguém perder a maioria de suas fichas e indo
all-in
na mão seguinte, eu geralmente presumo que há uma
boa chance de ele estar tiltado. Portanto, no meu caso, eu
não queria ir all-in
com lixo. Como eu já pareceria estar em tilt, eu sabia que
alguém provavelmente pagaria com qualquer mão
mais ou menos decente.
E, na verdade, minha
"estratégia" não seria diferente do que se eu
realmente estivesse tiltado! Caso eu planejasse ir all-in independente
de minhas cartas, não importaria se meus motivos eram uma
estratégia pré-planejada ou simplesmente um tilt.
De qualquer forma, uma gama muito maior de mãos do que de
costume pagaria minha aposta.
2. Mesmo que eu não tivesse
acabado de perder uma grande mão, eu precisava dar algum
crédito a meus oponentes de qualquer forma. Eles poderiam
ver claramente que eu estava em uma situação
desesperada. A sabedoria convencional do poker parece ignorar que os
oponentes têm cérebros, e que são
capazes de perceber quando você está short-stacked com
o big blind
se aproximando e, portanto, está mais propenso a ir all-in com uma
mão fraca. Na minha experiência, eles em geral
são inteligentes o suficiente para ser mais loose quanto
às próprias exigências de call para mixar o
jogo e usar mãos mais fracas do que o normal, sabem que sua
mão pode ser ainda pior. Além disso,
têm consciência de que mesmo que paguem e percam,
seu estoque é tão pequeno que não os
pode ferir muito.
Tenha em mente que, se eu recebesse
qualquer coisa que parecesse uma mão, eu estaria preparado
para correr riscos com ela. Mas, em vez disso, me deparei com 94o na
primeira mão e J3o quando estava under the gun,
então eu tinha de considerar os fatores que mencionei acima.
Eu realmente achava que tinha uma equidade de fold e, portanto, preferi
correr o risco com qualquer coisa que viesse no big blind, em vez
de jogar com uma dessas duas mãos. Decidi ir contra a
sabedoria convencional, pois pensei que meus oponentes eram espertos o
suficiente para estar preparados para isso.
À medida que você
sobe de limites, essa é a base de muitos ajustes que se deve
fazer em seu jogo. Por exemplo, caso eu estivesse jogando em um torneio
de $11 em vez do Sunday Million, eu poderia ter corrido o risco de ir
all-in, esperando que meus oponentes não levassem em conta
meu estoque e a situação, concentrando-se apenas
nas próprias cartas. Mas em um torneio com muitos jogadores
habilidosos, seria tolo pensar que eles teriam tão pouca
consciência de minha situação
desesperada. Em geral, "o livro" (aquele que contém
estratégias de poker amplamente divulgadas como corretas)
disse que eu deveria ir all-in
com 9-4. Na realidade, o livro não estava jogando contra
jogadores experientes, em sua maioria cientes do que disse o
próprio livro.
Permita-me dar outro exemplo. Eu tenho
um amigo que tem uma taxa de vitória incrível em
low-limit hold'em. Uma de suas jogadas preferidas é tomar a
iniciativa dos blinds em um pote sem raise com qualquer bordo que
pareça não ter ajudado ninguém. Se o
flop for 8-3-3, 7-2-2 ou algo do tipo, ele aposta 100% das vezes.
Ocasionalmente, alguém terá acertado um top pair
ou uma trinca, e ele descobre logo. Mas, na maioria das vezes, seus
oponentes simplesmente desistem e deixam-no levar os $8 ou $12 do pote.
Eles provavelmente jamais pensam duas vezes. Só que, no
final das contas, meu amigo já ganhou milhares de
dólares em potes desse tipo.
Essa poderia ser considerada uma
jogada típica do "livro": blefar em um flop que
possivelmente não deu um par ou um draw a ninguém
(de fato, essa é literalmente uma jogada do livro, vez que
discuto isso em meu Livro dos Blefes). Eu dou crédito a meu
amigo por fazer isso bem, mas ele joga em limites baixos. Ele
não dá muito crédito a seus oponentes,
e geralmente não precisa dar. Mas assim que ele subir de
limites, nós sabemos que ele sofrerá um severo
baque caso não faça mudanças em sua
estratégia.
Se ele tentar fazer a mesma jogada
indiscriminadamente em limites altos ou mesmo médios, seus
oponentes experientes saberão exatamente o que ele
está fazendo. Eles podem permitir que ele faça
isso aqui e ali, mas com muita frequência vão
reagir sem nada, sabendo que ele provavelmente também
não tem nada em mãos. No geral, se ele fizer
qualquer jogada indiscriminadamente ou com muita frequência,
seus oponentes logo irão perceber o que ele está
fazendo e contra-atacar como devem. Afinal, eles também
leram o livro. Em geral, o livro funciona muito bem, mas apenas contra
oponentes que não o leram. Quanto mais alto você
sobe na sala de aula, menos desses oponentes você
verá.
O que eu quero dizer é que
estou cansado de ouvir falar da jogada segundo o livro. A jogada
correta em dada situação depende de muitos
fatores, um dos quais é o nível de
experiência de seus oponentes. Portanto, quando
alguém me disser que você deve sempre ir all-in quando
estiver short-stacked
com os blinds
se aproximando, ou que você deve sempre blefar em dada
situação, eu direi que ele deve sempre estar
jogando contra adversários bastante desatentos.
Caso contrário, eu jogaria
o livro de volta na cara dele (risos).
Artigo de Matt Lessinger,
publicado na revista Card
Player Brasil Ano 2, N°. 15.
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