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06/02/2011


O mais velho toca piano
(por Christian Kruel)


Leitura de mãos e problemas.


Fala Galera,

Antes de mais nada, quero agradecer ao pessoal do podcast da Cardplayer Brasil pela participação. Obrigado ao GuiKalil e ao Lanza pela oportunidade de estar no programa, que de fato é nota 10! Fiquei feliz porque a repercussão deste evento foi bastante positiva!

O artigo desta edição é uma mistura de coisas que andei lendo pela Internet durante meus estudos. Espero que gostem.



Situação 1

O herói abre raise em middle position com AQ. O vilão dá call do button. Flop A-8-3 rainbow. O herói dá continuation bet, o vilão dá mini-raise, e ele paga. No turn bate um 8, e a mão roda em check-check. O river traz um X, o herói aposta 2/3 do pote, e o vilão dá mini-raise mais uma vez.



Situação 2

Duas amigas se encontram e no meio da conversa uma pergunta à outra a idade de seus três filhos. Ela diz que o produto da idade dos três é igual a 36. A amiga pensa e diz que precisa de mais informações. Recebe então a dica de que a soma da idade dos três é igual ao número da casa que está exatamente na frente dela. Ela olha para o número da casa, pensa e diz que precisa de mais informações. A amiga então afirma que seu filho mais velho toca piano e, diante disso, a idade dos três foi prontamente adivinhada.



O que essas duas situações têm em comum? Muito mais do que vocês imaginam... Uma mão de poker nada mais é do que um problema matemático, e a leitura de mãos nada mais é do que a habilidade de conseguir informações e usá-las da maneira correta para resolver o problema.

Vamos começar pela "Situação 2". Muitas pessoas, ao se depararem com esse tipo de problema, acabam se preocupando muito mais com as informações que não estão disponíveis, como o número da casa, por exemplo, do que com as que possuem para começar a resolver o enigma. Tem gente que até acaba se prendendo ao fato de o filho mais velho tocar piano e sequer consegue começar.

A primeira informação que nós temos é a de que o produto da idade dos três filhos é igual a 36. Comecemos então por ela. Quais seriam as possibilidades? Vamos lá...


1 x 1 x 36 = 36
1 x 2 x 18 = 36
1 x 3 x 12 = 36
1 x 4 x 9  = 36
1 x 6 x 6  = 36
2 x 2 x 9  = 36
2 x 3 x 6  = 36
3 x 3 x 4  = 36


Diante disso, nós de cara conseguimos reduzir um universo enorme de probabilidades a apenas oito delas e, a partir daí, temos nosso "range inicial" de possibilidades para resolver o problema.

Voltando para a "Situação 1" e fazendo o mesmo raciocínio, nós também podemos calcular o "range inicial" do vilão. Usar programas que definem o VPIP (voluntarily put money in the pot) e o PFR (preflop raise) do vilão ajuda muito nessa hora, mas vamos estabelecer, para fins limitativos, que ele tenha dado esse cold call com TT a 22, AQ a AT, KQ a KT, mais algumas duplas de figuras e suited connectors, e que mãos como KK e AK teriam sido tribetadas.

Passemos então à segunda etapa. Na "Situação 2", nós já limitamos nosso range a oito possibilidades e vamos agora submetê-las a nossa segunda informação, que envolve o número de uma casa e a soma de três idades. Vejamos:


1 + 1 + 36 = 38
1 + 2 + 18 = 21
1 + 3 + 12 = 16
1 + 4 + 9  = 14
1 + 6 + 6  = 13
2 + 2 + 9  = 13
2 + 3 + 6  = 11
3 + 3 + 4  = 10


Já que a personagem da nossa "Situação 2" viu o número da casa e não conseguiu adivinhar a idade dos filhos da amiga, nós podemos concluir que o número da casa era 13, vez que 13 é o único número que a deixaria em dúvida, pois qualquer outra possibilidade dentro do nosso range a levaria a adivinhar prontamente a idade dos filhos da amiga.

Logo, após o confronto com a segunda informação, nós conseguimos reduzir nosso range de oito para duas possibilidades: 1-6-6 ou 2-2-9.

E, como a amiga disse a nossa personagem que seu filho mais velho tocava piano, ela prontamente escolheu a opção 2-2-9, única em que temos apenas um filho mais velho, já que a outra mostra dois filhos mais velhos (de mesma idade), solucionando, assim, o problema.

No caso da "Situação 1", tudo que o jogador de poker tem que fazer é saber usar as informações da mesma maneira. Um raise no flop, por exemplo, dificilmente é blefe puro, ao contrário de um raise no river. Raises no flop geralmente são pelo valor ou como semiblefes. No caso dessa mão específica, o flop rainbow com poucos draws deixa a opção de semiblefe um pouco sem sentido. Ele tampouco deve ter dois pares, haja vista a textura do bordo. Ele também provavelmente não daria raise com um par tipo TT ou 99, o que praticamente limita nossas opções no flop a blefes e semiblefes (menos provável), 88, 33 e alguns ases.

No turn, dobra o 8 e a mesa roda em check. Você controla o pote e o vilão opta por fazer o mesmo, o que não muda muito a situação, a não ser pelo fato de você praticamente descartar 88 ou 8x na mão do vilão, vez que, se ele tivesse pagado no flop com um 8, teria apostado no turn depois do seu check.

No river temos uma carta que não altera a situação. Você aposta e ele dá raise mais uma vez. Como o raise foi baixo e você está comprometido com o pote, o vilão não está esperando que você jogue suas cartas fora. Com Ax o vilão não faria essa jogada, por causa do 8 dobrado, e tentaria controlar o pote. Logo, esse raise é um blefe ou é 33. Com boas odds, você dá o call para ver o 33 do vilão.

Ambas as situações foram bastante simples, mas é com esse tipo de simplicidade que as pessoas resolvem os mais difíceis problemas. No caso da mão de poker, o mais importante é ter a capacidade de imaginar que mãos o oponente jogaria e como ele as jogaria. O VPIP e o PFR são importantes para você imaginar um range inicial, porém, mais importante do que esses índices é o estoque efetivo de quem deu raise na situação. Um vilão com VPIP 25 e PFR 19, abrindo raise do UTG com 200 big blinds (deep) tem um range muito maior de open raise do que um vilão 25/19 que abre raise do UTG com 17 big blinds, já que, nesse caso, ele dificilmente estaria abrindo raise para dar fold diante de um reraise por causa do estoque.

Concentre-se no jogo, nos detalhes e nas informações passadas. Saiba usar essas informações com inteligência e em pouco tempo você estará firme na arte de leitura de mãos!


Artigo de Christian Kruel, publicado na revista Card Player Brasil Ano 3, N°. 26.




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