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26/11/2011


A regra dos 20 anos
(por John Vorhaus)


Vencendo o tilt.


As pessoas ficam fora de forma quando jogam poker. É verdade, ficam mesmo. Eu tenho certeza de que você notou. Algumas pessoas entram em pânico diante do primeiro sinal de adversidade. Eles manifestam isso através de jogo ruim, vibrações ruins, postura ruim etc.

Online, você vê os maiores exemplos disso, quando algum palhaço sem autocontrole toma uma bad beat e imediatamente surta e fala coisas do tipo: "Eu lhe odeio, quero que você morra".

De vez em quando, é claro, nós vemos certas pessoas fingir esse comportamento enquanto mantêm a cabeça fria. Isso se chama falso tilt, e não é uma má estratégia — se você souber utilizá-la — pois não há nada mais poderoso do que uma grande mão combinada com uma postura aparentemente ruim.

Contudo, o falso tilt é raro: é mais comum que o jogador que você acha que está representando o tilt esteja tiltado, contando desesperadamente com a sorte para reverter reveses recentes. E "Eu lhe odeio, quero que você morra" na verdade significa "Eu lhe odeio, quero que você morra".

Você vê isso no jogo live também, e embora o abuso verbal seja mais contido porque você sabe que pode (a) ser banido da mesa ou (B) apanhar, o tilt está presente da mesma maneira. Requisitos iniciais são menores. Apostas são maiores. Blefes são mais atrevidos (ou seja, suicidas). E por quê?

Porque a dor psíquica está presente, e nada é capaz de curá-la a não ser o rápido acúmulo de fichas. Os jogadores chamam isso de "melhorar", mas ninguém para para cogitar que a única razão por que você precisa melhorar é porque, bem, você adoeceu.

Portanto, vamos examinar essa doença do tilt e ver se conseguimos encontrar uma cura de longo prazo.

O problema do poker é que ele envolve dinheiro. Mesmo quando estamos jogando com fichas (ou, online, com números em uma tela), sabemos que estamos jogando por dinheiro de verdade, e isso tem um efeito poderoso sobre nós.

Lembre que o dinheiro foi originalmente criado como um meio conveniente de assinalar um valor de permuta para coisas como alimento, vestuário e moradia. Alimento, vestuário e moradia, é claro, são coisas de que precisamos para sobreviver.

Dinheiro, portanto, representa essas coisas, representa a sobrevivência em si. E todos nós, salvo os mais preparados psicologicamente, vamos ter uma forte reação negativa — uma reação instintiva — diante de ameaças à sobrevivência. Isso é natural — necessário, na verdade — pois se os humanos não se esforçarem para sobreviver, ainda viveríamos em árvores, sem saber de onde viria nossa próxima banana.

E embora tentemos nos distanciar psicologicamente dessa profunda conexão límbica, ela ainda se faz presente. Ficha é dinheiro; dinheiro é alimento, vestuário e moradia; alimento, vestuário e moradia são sobrevivência. Perder fichas, portanto, é morrer.

Não é de se impressionar que as pessoas se aborreçam tanto.

Para você não achar que eu estou pregando do topo de um monte, por favor entenda que eu corro tanto risco de tiltar tanto quanto qualquer outra pessoa. Eu experimento o tilt como forma de justa indignação, como quando, por exemplo, eu coloco meu dinheiro bem (A-K versus A-2, digamos) e o outro cara acerta um de três outs e me derrota.

Eu acho que sou um cara bastante esperto, e me abala — física, psicológica e emocionalmente me abala — ser vítima de um idiota cuja inteligência e jogo eu claramente superei. Mas eu sei o suficiente sobre tilt, e me conheço o bastante para saber que uma bad beat pode acarretar uma cascata de jogadas ruins, e se eu não quiser que isso aconteça, preciso ter em mãos uma reação defensiva.



Eis uma das minhas favoritas — a regra dos 20 anos.

A regra dos 20 anos afirma, de forma simples, que se algo não vai importar em 20 anos, não deve importar agora. Perdi um pote de $100. E daí? Meu objetivo final vai mudar devido a essa perda? Hoje talvez sim. No mês seguinte? Duvido. Em 20 anos? Certamente não.

Portanto, quando sofro uma bad beat (principalmente devido a mãos de idiotas), eu silenciosamente invoco a regra dos 20 anos — com motivos absolutamente não relacionados ao poker, é claro — e então não me preocupo com nada no mundo.

Há outras maneiras de vencer o tilt. Você pode se levantar e sair para um passeio ou restringir seus requisitos de mãos iniciais; pode voltar ao poker básico e sólido ou até mesmo simplesmente sair do jogo. Todas essas abordagens são estrategicamente uteis, mas não se dirigem à profunda psicologia latente do tilt. Elas não se dirigem àquele sentimento oculto de estou doente e preciso melhorar.

Portanto, da próxima vez que você tiltar, quero que vá além da invocação de suas estratégias. Quero que você faça mais, até, do que invocar minha regra dos 20 nos. O que eu quero que faça é abrir sua consciência para seu próprio estado mental e se perguntar: "O que eu estou sentindo agora?".

Explorar essa questão, dirigir-se a ela e respondê-la vai lhe ajudar mais a voltar a um estado de tranquilidade do que qualquer outra ação que vise acabar com o tilt. Você não precisa se punir por tiltar — isso é tão natural quanto tentar sobreviver — mas você também não precisa se punir ainda mais tornando pior uma situação que já é ruim. O ideal é que o tilt cesse no momento em que você reconhecer sua presença e aceitar que aconteceu com você.

Se isso não ajudou, o seguinte pode ser útil. É uma citação de Alan Wykes em The Complete Illustrated Guide to Gambling (O Completo Guia Ilustrado das Apostas). Wykes escreveu:


"Apostar é uma maneira de comprar esperança a crédito. Todos nós somos escravos ligados pelo gerenciamento advindo dos cartões de crédito. Para compreender totalmente nossa ligação precisamos lembrar que cada um de nós deve nossa existência à fortuita colaboração de dois pequenos organismos férteis; enquanto uma distribuição aparentemente acidental de cromossomos, genes e hormônios influencia gênero, raça e disposição. Nós passamos pela vida em direção a uma morte cujo tipo e data dependem totalmente do acaso. Durante nosso progresso do útero ao túmulo nós nunca paramos de apostar, pois não temos como prever o resultado de cada uma das muitas decisões que precisamos tomar todos os dias; podemos apenas esperar o melhor".


Sempre que jogamos poker — bem, sempre que fazemos qualquer coisa — estamos conduzindo e apreciando o precioso dom da vida, um presente que tivemos muita sorte de ganhar. Bad beat? Derrota feia? Incrível falta de sorte? Nada disso se compara à grande sorte de ter nascido.

Lembre-se disso da próxima vez que tomar uma bad beat e quiser tiltar: visto sob a perspectiva da sorte de estar vivo, não apenas não vai importar em 20 anos, como absolutamente não importa agora.


Artigo de John Vorhaus, publicado na revista Card Player Brasil Ano 3, N°. 29.




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