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28/07/2012


De vira-lata a estrela
(por Pedro Nogueira)


Como a década de 2000 transformou a identidade do jogador de poker.


No começo de 2003, entro na casa da minha namorada e o sogro me chama de canto: "Cuidado, tenho um tio que perdeu duas fazendas na mesa de poker". Eu era novo na família e acabara de contar que jogava cartas. Dou um sorriso, sem pressa de responder. Ele insiste, ar profético nos lábios: "É um jogo perigoso. Leva muita gente à falência". O sermão continua – e vou ouvindo calado. Até que tomo a dianteira. Onde está o tio falido? Não há notícias dele. Qual é o nome? Ninguém se lembra, pois é um parente distante. E o homem que ganhou as duas fazendas? Sabe-se lá quem é.

Se você joga poker há mais de cinco anos, certamente conhece o célebre, o infalível, o incurável discurso do "tio viciado". Falei do sublime "tio" e já lhe acrescento outra característica vital: tal qual um Bin Laden, esconde-se com habilidade assombrosa. É um ilustre desconhecido. Antes da década de 2000, o "tio perdedor" era personagem certo numa conversa sobre poker. Ninguém sabia ao certo seu nome, idade ou paradeiro. Mas lá estava ele, o "tio azarado", com a dramática história da falência. Sua presença espectral e massiva dava uma identidade de vira-lata a todos os jogadores de poker. Sim, não havia exceções: perdedor ou ganhador, o jogador tinha, dentro de si, traços gritantes do "tio falido". Éramos todos dilapidadores crônicos de fazendas.

Eis que a secular existência do "tio perdedor" chega ao fim. (A idade exata era um mistério, mas é sabido que passava dos três dígitos). Muitas pessoas não se deram conta do trágico acontecimento – a crudelíssima morte do "tio jogador". Realmente, o velório foi discreto, sem a presença da mídia ou de massas populares. Mas é fato: ele se foi. Não resistiu ao poker online, às transmissões da ESPN, a Moneymaker, ao Texas Hold'em. A década de 2000 foi seu algoz, como se fosse uma agressiva tuberculose bilateral.

Engana-se, porém, quem pensa que as conversas de poker, com a recente morte do "tio viciado", ficaram órfãs de personagens. Surpreendam-se: ele deixou herdeiros. O leitor, com sua rigorosa curiosidade, há de perguntar: "Quem? Quem?" Respondo: as estrelas do Texas Hold'em. Estas, ao contrário do "tio falido", são palpáveis, concretas, visíveis – e, acima de tudo, vitoriosas.

Lembro-me de um ótimo perfil de Daniel Negreanu que li no jornal americano The New York Times, em 2005. Quando o repórter comenta sobre a exposição televisiva que a World Series of Poker (WSOP) e o World Poker Tour (WPT) trouxeram aos jogadores, Negreanu diz: "Somos os novos rock stars". E são. Todo mundo conhece o Texas Hold'em, sabe as regras do Texas Hold'em, quer jogar o Texas Hold'em. Até mesmo as esquinas e os botecos conversam, entre si, sobre os potes milionários disputados por Tom Dwan, Phil Ivey e Patrick Antonius na internet e no High Stakes Poker. (Nas minhas crônicas, as esquinas e os botecos falam).

Resistem algumas almas conservadoras que, saudosas do "tio falido", usam o velho argumento da sorte para atacar o poker. "É um jogo de azar", dizem. Ok. A sorte, realmente, influencia no poker. Mas sem um mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem comer um pêssego – morre engasgado com o caroço. O que dizer, então, do tiebreak no tênis? Ou da disputa de pênaltis no futebol?

Todos os funerais são tristes – e o do "tio azarado" não foge à regra. Até mesmo a morte de um cruel gângster ou de um cossaco russo desperta um mínimo de comoção. Admito: sentirei falta de ouvir a história do "tio pato". Mas nós, jogadores de poker, devemos agradecer à década de 2000. Ela finalmente nos libertou da identidade de vira-latas, da fama de dilapidadores de fazenda. Hoje, todo o jogador tem um pouco de Doyle Brunson, de "durrrr", de Phil Hellmuth dentro de si. Seja um ganhador ou um perdedor, somos todos estrelas. Essa é a verdade.


Artigo de Pedro Nogueira, publicado na revista Card Player Brasil Ano 3, N°. 30.




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